Auge






Estou no auge, sem dúvida. Nada pode ser mais alto do que isso.


Hmmm... na verdade, pode.


No entanto, nas inúmeras paradas que fiz na escalada para refletir se valia a pena realmente se desventurar juvenilmente no caminho do amor pleno, puro e unidirecionalmente construído, percebi que nenhum esforço humano meu seria mais válido para alcançar o topo, logo, o meu auge chegou.


Hoje, o sentimento ainda indefinido percola por toda a minha forma anatomo-fisiológica, entre células, tecidos e órgãos.


Ele revigora, enciuma, alegra espiritualmente quando o topo, por impressão babaca dos meus olhos e sentidos, se faz mais próximo.


Estou no meu auge. Daqui não devo mais avançar, mas desafiar a natureza é algo tão excitante, que vou continuar a permanecer na linha perigosa e arriscada da desobediência do óbvio.

Doces ou Travessuras?


O desfrute era do clima setembral, mesmo assim, crianças precoces bateram a minha porta com o bordão do Dia das Bruxas.
— Doces ou travessuras?
A estranheza foi instantânea. Aquelas crianças não estavam fantasiadas e nem dotavam de apetrechos que conferissem o terror e o medo da data comemorativa.
Fui carinhoso, como aquelas crianças esperavam que eu ia ser, pois costumeiramente eu já o fazia com elas. Deixei elas entrarem na minha casa e tranquei a porta, com isso o alavanque da estranheza acelerou quando percebi que as infantes começavam a se despir.
Naquele instante eu pude ver a alma daquelas crianças e ter a interpretação clara de quem elas eram. O desejo de me fazer infante e me unir a elas batendo de casa em casa, e se divertir no final contando as travessuras ou devorando os doces conquistados cresceu avassaladoramente.
Por sorte ou azar, a realidade beliscou o meu impulso, mostrando a impossibilidade nua que haveria de eu cometer o ultraje, resisti. Entreguei às crianças os melhores bombons que tinha na minha despensa, e as deixei partir.

Afogamento



É a asfixia provocada pela imersão prolongada do organismo em um meio líquido. Representa, no mundo, a segunda causa de morte por acidente, na faixa de 1 a 25 anos de idade.
Não, eu não sei nadar, mas não tenho medo. Já entrei em piscinas que não davam pé, em mares agitados, lagoas profundas e outros perigos aquáticos maiores.
Agora nado numa lagoa rasa, mas que adiante esconde uma espécie de monstro semelhante ao
do Ness, e eu mesmo sabendo que tem monstro ali continuo nadando cada vez mais.
Eu não tenho culpa! O monstro tem uma sedução lunática que vulnerabiliza o mais racional dos corações.
No entanto, eu sei. Eu não me depararei com o monstro, antes disso, me encontrarei em uma imersão prolongada do meu organismo, em meio líquido.

Sem neurose!

A funkeira mais acinturada do Brasil é avó aos 29 anos. Sua filha de 15 anos repete a mesma história da mãe que engravidou aos 13.

O mais engraçado da notícia é que o espanto se configura apenas por uma mulher poder ser avó aos 29, quando ainda temos estereotipado em nossas mentes a avó de cabelos brancos tricotando em uma cadeira de balanço.

Isso só acontece, pois Tati Quebra-Barraco é famosa pelo funk escrachado e bem escrito, ao meu ponto de vista, que engraça o sexo como uma disputa e não como a romântica troca de prazeres.
A estranheza também se dá pelo fato de que Tati, que agora possui uma boa condição de vida, tendo-se em vista as inúmeras lipoesculturas que realizou não ter conseguido realizar para a filha um destino diferente.
Destino ou determinismo? "Sem neurose!"

Contradição na Convicção



A convicção está fora de moda, mas seria mais gostoso se não estivesse. A vida realmente se torna mais portátil pra quem não tem nada a esconder, mas a portabilidade de nada vale quando se deseja sentir o macio sabor do hedonismo.


A sistemática é hierarquicamente superior a todas as relações: profissionais não convictos de suas atividades, amantes não convictos da fidelidade do parceiro, partidos políticos que dissolvem valores galgados por anos por conveniências maquiavélicas, modelos de beleza inseguros que se rendem a anorexia, bulimia, e por aí vai...


Contudo, é de se concordar que a convicção prende, e prender-se em tempos em que a liberdade tem sido gritada nos quatro cantos do mundo é uma tremenda idiotice.

Chiclete com Banana



Era uma vez um gato. Mas não um comum, esse tinha pedigree, era diferenciado. Era inteligente, tinha bagagem intelectual e fazia jus a seu título: ele era um gato.


Mas, como a onipotência só é conferida ao Criador, o gato tinha lá as suas fraquezas. Ele sabia que ele era um gato de valor no mercado animal, no entanto, o gato buscava o reconhecimento latente de seu valor em bandos, manadas e nuvens, que devido a limitações, jamais poderiam satisfazer o desejo do bichano.


Chegou um dia, que o gato agindo por instinto, confundiu-se e se atraiu pela fragância do cio de uma cadela. Era uma cadela e não uma cahorra.


O gato entorpecido pela sensação alucinógena que o olfato lhe proporcionava a cada passo que dava em direção a cadela, foi surpreendido pela correspondência da mesma, que mais sensata que o gato tratou logo de apresentar-lhe a óbvia impedância:


— A Mamãe Natureza em seus regimentos não permite que nós nos relacionemos, o que fazer?


Logo, a torpeza do gato se esvaiu.


A sagaz cadela tratou rapidamente de exibir outros atributos para convencer o gato a readmitir a vontade explícita da cópula proibida. Ela emitiu um latido suave e doce que convenceu o gato.


Foram para o escurinho e ajustaram-se aqui e acolá, agrupando-se de forma a permitir uma mecânica sexual prazeirosa para ambos. De todos os esforços apenas a cadela satisfez o seu cio, e tratou logo de dispensar o gato.


O gato decepcionado, continua até hoje envolvido na teia grudenta da medida do impossível.

Supercola ou resina epóxi?

Ela numa noite chuvosa de quinta-feira decide:

— É só isso, não tem mais jeito! (Vanessa da Mata - Boa Sorte)

— Não faça assim! (Paula Toller - Nada por Mim)

— Minha estranha loucura é tentar te entender e não ser entendida! (Alcione - Minha Estranha Loucura)

— Meu amor! Se você for embora, sabe lá o que será de mim??? (À Francesa - Cláudio Zoli)

— Eu quero ir embora! Eu quero dar o fora! (Você não entende nada - Caetano Veloso)

— Vamos tentar tudo novo de novo. Vamos se jogar aonde já caímos! (Tudo Novo de Novo -Paulinho Moska)

— Deixa eu decidir se é cedo ou tarde. Espera eu considerar! (Deixa o Verão - Los Hermanos),

Ele pensa: "Será que ela quererá, será que ela quer, será que meu sonho influi?" (Gatas Extraórdinárias - Cássia Eller)

— Ok! Não leve a mal se eu mudo feito a moda. Hoje eu fico insegura, mas amanhã quero aventura! (Não leve a mal - Danni Carlos)

— Venha! Que a vida pra você será boa! (Acelerou - Djavan)

— Ah, se eu vou! (Ah, se eu vou! -Roberta Sá)

"Um dia desses eu me caso com você, você vai ver! Ai, ai! Você vai ver!!!" (Um dia desses - Adriana Calcanhoto)